CUIABÁ

ROSANA LEITE

Mães múltiplas

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A figura da mãe é extremamente marcada na vida dos seres humanos. O ‘ideal’ maternal, sem qualquer filtro, é da mulher que se sacrifica pelos filhos, filhas e toda a família. O nome ‘mãe’ ecoa, e, a doçura, a leveza, a compreensão, dentre tantos sentimentos positivos adentram o imaginário, como se essas fossem absolutas obrigações delas. Seriam todas as mães colocadas em formas a seguir determinadas condições?

Em tempos de outrora, a figura da ‘matriarca’ habitava as famílias, como forma afirmativa de dizer que as mães ficavam incumbidas de ajudar a buscar a felicidade dos seus, com a falácia de que elas ‘mandavam’. Na verdade, essa era apenas uma forma de as encher de responsabilidades afirmando que exerciam certo ‘poder’. Sim, as mães tinham a finalidade de serem incansáveis, e, ainda, deveriam trazer um belo sorriso a alegrar os dias daqueles e daquelas que com ela conviviam. E se algo não saísse conforme o esperado, elas eram as culpadas incondicionalmente. A filha não efetuou um casamento conforme ‘desejado’, cadê a mãe? Cuidar com quem os filhos convolariam as núpcias, para uma boa ‘escolha’, também não fugia ao controle delas. Até culpadas pelo cometimento de crimes de suas ‘crias’ elas eram. E com o passar do tempo, as mães passaram a acumular o dever de ‘super mulher’ mesclando trabalho doméstico e fora de casa a serem desenvolvidos com maestria.

O ‘ser mulher’ abarca a todas as mulheres. A visão feminista da maternidade deve ser a realidade atual. Não se destaca a mulher da mãe. E aí, o pensamento sobre todas é o mais importante. Existem sim: mães que laboram fora; mães que  ficam em casa; mães mais preocupadas ou não; mães que querem parto normal e outras cesarianas; mães que passaram por violência obstétrica; mães vítimas de violência; mães de pessoas em situação prisional; mães de muitos filhos e filhas; mães de um rebento somente; mães cujo trabalho fora de casa é imenso, outras nem tanto; mães que estudam eternamente; mães que possuem um par amoroso ou não; mães alegres ou tristes; mães que saem com as amigas e amigos; mães mais reclusas em casa; mães na política… Nossa, quantas mães! Na verdade, quantas mulheres em suas faces.

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Com tantas mães e mulheres, como pensar em uma forma de bolo a colocar mulheres, e as rechear de obrigações e responsabilidades que as aprisionam? Não, não há como. A maternidade atual não segue padrões, sendo exercida sem submissões ou comparações. O feminismo tem se debruçado em torno da maternidade para que o patriarcado não continue a rondar. Não é possível idealizar o ‘ser mulher’ maternal. Assim como qualquer mulher, as mães necessitam de liberdade. Elas podem escolher ser quem quiserem ser, a mãe ou a mulher que almejam, e não aquela construída pela história em laboratórios formados pelo machismo estrutural.

O mundo ouve que ‘ser mãe’ é exercer a possibilidade de conhecer o verdadeiro amor. E as mulheres que optaram por não desempenhar a maternidade, não conhecerão o amor? Ser mãe não é um dever, uma obrigação, mas, sim, um direito. Respeitar como cada mulher deseja ou não exercer esse direito, é entender que ela não escolheu um ‘fardo’, mas, sim, uma das faces das mulheres.

Maternar é emancipador às mulheres! Querer ou não. Ser mãe raiz ou Nutella, como se diz na atualidade. É exercer a política, já que a maternidade também o é. E o que é ser mãe? Como é ser mãe? Como deve uma mãe se portar com a escolha?

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É preciso entender que os corpos das mães não são públicos e à disposição da sociedade. Ser mãe é também ser mulher. É proporcionar educação libertadora para a prole. É romper com a maternidade patriarcal. É viver livre, aberta ao mundo e às pessoas como qualquer ser humano. É conviver sem imposição. É não buscar satisfazer a um ideal maternal que inexiste. É criar filhos, filhas e filhes com a certeza de que o respeito deve permear essa relação, sem qualquer possibilidade de se realizar em pessoas.

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.

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Cuiabá sem homofobia. Sonho ou realidade?

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Desde que foi criado em 2014, o Conselho de Atenção à Diversidade Sexual de Cuiabá (CMADS), vem a todo custo tentando fazer o seu papel de propor, deliberar, fiscalizar, acompanhar e contribuir na normatização de políticas relativas aos direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.

Entretanto, essa luta diária esbarra nas burocracias e também numa cultura enraizada por anos, numa parte da população que ainda não consegue enxergar as mudanças impostas ao mundo no avanço, sem retrocesso, na convivência e respeito à orientação sexual de cada pessoa.

Mas, precisamos refletir aqui sobre o papel do Estado nessa luta, principalmente dos “nossos representantes” na Assembleia Legislativa que recentemente rejeitou o projeto de lei que visava a criação do Conselho LGBTQIA+ em Mato Grosso, em manobras comandadas pela ala evangélica da Casa de Leis, indo totalmente ao contrário do entendimento e acolhimento de diversas cidades do país.

Isso reflete, e muito, no crescimento no reforço ao preconceito, claramente visto no relatório do Grupo Gay da Bahia, onde Mato Grosso ficou em 9º lugar com mais mortes de pessoas LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) em 2021, e dos casos registrados, foram 15 mortes violentas no ano passado.

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Ainda segundo o relatório, a cada 19 horas, uma pessoa LGBT é morta no país, e pelos dados da Rede Trans Brasil, a cada 26 horas, aproximadamente, uma pessoa trans é assassinada no país. A expectativa de vida dessas pessoas é de 35 anos.

No Brasil, a maioria das vítimas, 51% dos casos, era gay, com 153 mortes. Travestis, transexuais, e mulheres trans estão em segundo entre os mais mortos de forma violenta, com 110 ocorrências.

Vale lembra que Cuiabá, em  2014 entrou para um “ranking” absurdo e, segundo o antropólogo da Universidade Federal da Bahia, Luiz Mott, a nossa Capital foi apontada como a mais homofóbica do Brasil, com números de assassinatos caracterizados pelo excesso de violência na ação, como afogamentos, atropelamentos, enforcamentos, degolamentos, empalhamentos, violência sexual e tortura. “O homofóbico não quer apenas matar a vítima, ele quer destruir a homossexualidade”, afirma Luiz Mott.

Essa realidade, desde de 2014, já mudou. O Conselho de Atenção à Diversidade Sexual e a Prefeitura Municipal vem acompanhando junto aos órgãos públicos as pautas de luta diária no combate à Homofobia. A população “trans”, que mais sofre essa violência, tem ganhado visibilidade e pautas importantes como a decisão do Superior Tribunal de Justiça sobre a Lei Maria da Penha — que protege as vítimas de violência doméstica — no sentido de ser aplicada também para mulheres transexuais.

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Mas precisamos fazer mais, muito mais, e enquanto Conselho de Atenção à Diversidade de Cuiabá, estaremos atentos na luta para que nossa Cidade Verde não seja reflexo de “rankings” de violência no Brasil para os LGBTQIA+, e que nós consigamos exercer os direitos de cidadãos livres para amarmos e construirmos nossas famílias.

 

Valdomiro Arruda

 

Presidente do Conselho de Atenção à Diversidade de Cuiabá (CMADS)

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